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24.8.2010 | 9h 38m
Crônicas Apissianas 2010 – Série D – Suassunianas IV


A COMPADECIDA
Deixe João voltar.
MANUEL
Você se dá por satisfeito?
JOÃO GRILO
Demais. Para mim é até melhor, porque daqui para lá eu tomo cuidado para a hora de morrer e não passo nem pelo purgatório, para não dar gosto ao cão
(Ariano Suassuna, In Auto da Compadecida, 1959).

Amigos, a forma com se conta uma história é um dos maiores desafios para o entretenimento com palavras. É uma arte, um desafio nas diversas modalidades de narrativa. Seja um livro, seja uma peça, seja um filme, seja uma novela, uma história em quadrinhos, ou um seriado. Seja uma contação de história de Dona Benta no avarandado do Sítio do Pica Pau Amarelo ou dos nossos poetas na Feira do Livro encerrada neste domingo. Saber envolver o espectador, ou leitor é uma dos segredos para sucesso de um evento. Estudos são desenvolvidos na área da crítica literária e mesmo do cinema e TV para analisar e entender o que nós, reles leitores/espectadores entendemos e avaliamos subjetivamente: entretenimento ou conhecimento através de uma boa história. Em Hollywood ano passado a greve dos roteiristas deixou em polvorosa a indústria do show business, pois são eles que trazem a essência para que os atores e diretores brilhem. Americanos... Com o pragmatismo que lhes é inerente, eles partem para definir uma fórmula de sucesso: uma história deve ser contada com uma fase em que você descreve os elementos e sujeitos da história, de forma a que seja criado um contexto e uma ligação entre eles. A partir daí segue-se a narrativa desenvolvendo a relação entre esses personagens até que se chegue numa situação de conflito que deve ser resolvido. Seria o clímax da historia. Definida a situação conflito parte-se para o epílogo, com a solução para o impasse criado anteriormente. A grande maioria dos filmes de entretenimento segue essa lógica com nuances de dialética: tese, antítese e síntese. Cursos para roteiristas definem esse formato com padrão. Claro que vez em quando aparece um Tarantino, para ficar entre os diretores americanos, ainda, e monta um Pulp Fiction subvertendo toda essa linearidade, contando uma seqüência fragmentada quase que em esquetes, como numa peça de teatro.
O auto da compadecida possui elementos desse formato contexto-conflito-clímax que, apesar de reproduzido no cinema, é antigo, vindo da comedia dell’ arte italiana, que por sua vez remonta às peças gregas. É nessa tradição Armorial que insere a peleja do Touro nas cidades irmãs.
Aqui me defendo do silêncio Apissiano, que  tem sua razão de existência como defesa dos reveses sofridos pelo Touro. Como escrever sobre a dor? Melhor fazer um Blues...
Pois a receita roteirística batida se repetiu, e, tal qual os mais comuns filmes de sessão da tarde, o Touro encantou e prendeu seus fiéis seguidores, depois os levou às raias da loucura e do desânimo para finalmente redimir nossos pecados e nos fazer acreditar ir além.
Sim amigos, não faltaram nem os velhos clichês de demissão de técnico e alteração de esquema tático, contratação às pressas, enfim, essas coisas fazem da administração futebolística essa novela mexicana com requintes pastiche.
Com o drama sofrido, aliado à lanterninha do Nordestão, o Flu viveu seu caminho pro inferno. Com o Encourado em seu julgamento, apunhalado que foi por Severino River de Aracaju em seus próprios domínios, e abatido pela volante do Treze nas proximidades da Pedra do Reino, após uma árdua batalha, o Touro sangrava. Ainda durante a semana se debateu com os garrotes do Bahia e após dura contenda se contentou com o empate, suficiente para passar a lanterna adiante. Voltando à epopéia das cidades irmãs, claro que a primazia deveria caber à terra do coração do mestre. E o Treze assegurou sua vaga no grupo. Para garantir o suspense, chegava-se ao epílogo esperado com todas as demais cidades (Caruaru, Aracaju e Feira) com chances de seguir adiante. Mas o bom toureiro sabe o limite de fustigar o touro. E o Flu estava ferido. Desacreditado mesmo de sua torcida, à espera do julgamento do Encourado. Porém, a nós não nos é destinado o Inferno. Não senhores, nem o purgatório almejamos. Apenas a chance de seguir tentando. Como João Grilo, queremos voltar e continuar tendo chance, sem dar gosto ao cão...
E foi assim que um time todo “deferente” (3-6-1?) adentrou esse irregular gramado do Jóia domingo, diante de pouco mais de mil almas, para tentar cumprir o que estava traçado em nossos melhores roteiros. Sim amigos, foi com a velha certeza de super-herói de quadrinhos que chegamos em mais uma tarde de céu impressionista no Jóia velho de pelejas. E, ao adentramos o estádio, sabíamos, de antemão, que o Central não era nosso adversário. Nosso adversário era nossa ansiedade. E com ela o Flu partiu pra cima, ainda que atabalhoadamente, até que, num raro instante de lucidez do time, Sadrack acerta um cruzamento preciso para a cabeçada desse Danilo Cruz que pode vir a ser alguma coisa, se melhorar seu condicionamento, e para uma defesa magistral de Isaac, que felizmente deu rebote para Deon, no seu melhor estilo oportunista. Flu 1 X 0. Mas como nada no Touro é fácil, o Central empataria dois minutos depois, em mais um vacilo conjunto da zaga e do goleiro Tigre. Aqui cabe uma discussão sobre a tragédia individual desse rapaz. Ano passado atuando contra o Flu, Tigre era uma parede. Atuando no Touro, o felino se perde em bolas fáceis, demonstra um nervosismo de juvenil. O tiro de meta batido de forma bisonha no segundo tempo só demonstrou isso. O Flu tem apresentado uma estranha tradição de goleiros. Falam que Jair deve voltar, apesar da mágoa da torcida com suas provocações ano passado. Finda-se o primeiro tempo no silencio sepulcral da ausência da bateria da Falange. Mas a certeza estava lá, desde tempos armoriais... Mestre Suassuna haverá de entender que cá, no sertão desse lado do São Franscisco, nessa Feira que foi pouso e parada de tantos pernambucanos, paraibanos e sergipanos, sim, cá, na Feira da mãe da Compadecida de todos os nordestinos, devemos nós a seguir viagem. E a misericórdia veio na bola chorada, empurrada para o gol por Júnior Mineiro. Era o clímax do nosso roteiro.
Daí o Flu ficou cozinhando o jogo em banho-maria, apesar da vantagem numérica pela expulsão de um jogador pernambucano. O jogo só não ficou muito chato devido a uns lampejos de contra-ataque que o Flu arriscava, já com Cicinho e Valdo e na insistência de Ribinha, que deveu muito. Mais emoção havia em procurar saber o resultado do jogo em Sergipe. Ou em acompanhar a bateria ainda tímida da Força Jovem.
E assim o Flu, vai em sua segunda ida para a segunda fase, com Deus e com Senhora Santana, que foi quem nos valeu. Ajoelhemo-nos, pois, diante da Mãe da Compadecida e beijemo-lhe a mão. Até à vista, grande advogada. Não nos deixe de mão não, que este Flu Grilo está decidido a tomar jeito, mas a senhora sabe que a carne é fraca.
A história da peleja das cidades irmãs, do Flu Grilo/Chicó da Mãe da Compadecida termina aqui. Para encerrá-la, nada melhor do que uma versão do verso com que acaba um dos romances populares em que o Auto de Suassuna se baseou:
“Meu verso acabou-se agora,
Minha história sem gado de couro.
Toda vez que eu canto ele,
Vêm dez mil-réis pra a Arena do Touro.
Hoje prometem cinco,
Talvez não ache do Estado maior tesouro.”

Cristóvão Cordeiro – é professor, engenheiro, e vai seguir para Brasília, que para o Flu hoje nesse País lugar melhor não há.
PS1: Ápis é o touro sagrado do Antigo Egito. Daí o adjetivo apissianas.
PS2: Ariano Suassuna, escritor e dramaturgo paraibano, é um dos ícones da literatura nordestina e autor da peça mais popular da história do teatro brasileiro: O Auto da Compadecida, e a quem essa série de crônicas prestou singela homenagem como Suassunianas.

 

 
rafael@blogdovelame.com
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Samuel Oliveira escreveu:
"A história da peleja das cidades irmãs, do Flu Grilo/Chicó da Mãe da Compadecida termina aqui." Acho que não vai terminar não, passando pela Brasília amarela, tornaremos a certamente encarar o time de Campina Grande, agora já valendo uma vaga entre os oito semifinalistas!!! Bora Touro, incantado e Aruá, não deixe mais ninguém te derrubar!!!
 
 
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