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Eleições 2026 / 05 de outubro de 2026 - 05h 33m

Jerônimo reduz vantagem de ACM Neto em Feira mesmo com Zé Ronaldo mergulhado na campanha; o que explica?

Jerônimo reduz vantagem de ACM Neto em Feira mesmo com Zé Ronaldo mergulhado na campanha; o que explica?
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Leandro Santana

ACM Neto (União Brasil) voltou a vencer a eleição para governador em Feira de Santana, mas o resultado de 2026 revelou um movimento político que merece atenção: Jerônimo Rodrigues (PT) conseguiu reduzir significativamente a vantagem do adversário no segundo maior colégio eleitoral da Bahia, mesmo enfrentando uma campanha local muito mais organizada e diretamente comandada pelo prefeito José Ronaldo, seu colega de partido.

Em 2022, no segundo turno, o carlista recebeu 204.662 votos na segunda maior cidade do estado, contra 142.490 do adversário; isto é, uma vantagem de 62.172 votos. Quatro anos depois, já com o petista no governo e disputando a reeleição, Neto voltou a liderar na cidade, mas a distância caiu para pouco mais de 24 mil votos. O candidato do União Brasil terminou com cerca de 175 mil votos, enquanto Jerônimo  ultrapassou os 151 mil. Em termos políticos, o governador reeleito não virou em Feira, mas reduziu de forma considerável um dos principais colchões eleitorais de Neto no estado.

O dado ganha ainda mais importância quando se observa a diferença entre as campanhas de 2022 e 2026. Há quatro anos, Ronaldo vivia uma relação muito mais turbulenta com o ex-prefeito de Salvador. Considerado favorito para ocupar a vaga de vice na chapa, viu seu nome ser preterido em favor da desconhecida Ana Coelho. A decisão provocou forte insatisfação, chegou a alimentar rumores de rompimento e reduziu o entusiasmo de parte do grupo local com a campanha. O próprio José Ronaldo admitiu, posteriormente, que foi dormir acreditando que seria anunciado como vice.

Desta vez, o cenário foi completamente diferente. Já de volta à Prefeitura de Feira, Ronaldo entrou de cabeça na campanha. Organizou agendas, recebeu o candidato, articulou reuniões com empresários, lideranças evangélicas e vereadores da base, participou de caminhadas e carreatas e colocou sua estrutura política diretamente a serviço da candidatura. Na reta final, foi ele quem organizou o encerramento da campanha em Feira. A adesão foi tão explícita que, durante uma caminhada pelo centro da cidade, o prefeito chegou a subir no capô de um carro ao lado do candidato e dançar.

Ou seja: se em 2022 havia ruídos, ressentimentos e questionamentos sobre o real envolvimento de José Ronaldo, em 2026 não houve espaço para dúvidas. O prefeito abraçou a campanha. Ainda assim, a vantagem de ACM Neto caiu.

Isso ajuda a explicar por que o desempenho de Jerônimo na Princesa do Sertão merece ser observado para além da derrota numérica. O petista enfrentou a máquina política mais forte da cidade, comandada por um prefeito eleito cinco vezes, com ampla bancada na Câmara, secretários mobilizados e uma estrutura eleitoral que historicamente consegue produzir resultados expressivos. Mesmo assim, conseguiu avançar.

Parte desse crescimento pode ser explicada pelo que Jerônimo construiu durante os quatro anos de governo. A principal diferença em relação a 2022 é que, desta vez, ele não chegou à eleição apenas como um candidato associado ao PT e a Lula. Chegou como governador com um conjunto de obras para apresentar no município.

O Centro de Convenções talvez seja o maior símbolo dessa estratégia. Durante mais de duas décadas, o equipamento permaneceu como um dos grandes “elefantes brancos” da cidade, cercado por paralisações, promessas e disputas sobre a paternidade da obra. A conclusão e entrega pelo governo permitiram transformar um antigo passivo político em uma vitrine de gestão.

A lógica se repetiu em outras áreas. O governo requalificou o Complexo Cultural Carro de Boi, incluindo a tradicional Abóbora, e avançou na recuperação do Centro de Cultura Amélio Amorim. Também entregou escolas de tempo integral, ampliou estruturas do Hospital Geral Clériston Andrade e executou investimentos nas áreas de segurança pública e infraestrutura.

Jerônimo também soube explorar politicamente sua ligação pessoal com Feira. Embora tenha nascido em Aiquara, foi aqui que o governador construiu parte importante de sua vida profissional no município, onde foi professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Ao longo do mandato, passou a se apresentar repetidamente como alguém ligado afetivamente à cidade e, em diferentes agendas, declarou Feira como parte de sua própria história.

A tese do “Jerônimo feirense”, ainda que construída politicamente, acabou encontrando terreno. E não ficou apenas no discurso. O governador fez da presença constante no município uma estratégia. Participou de inaugurações, eventos institucionais, agendas de segurança, educação e saúde e marcou presença em festas tradicionais, incluindo a Micareta em mais de um dia. Em vez de aparecer em Feira apenas durante a campanha, passou a ser visto com frequência no município ao longo do mandato. Esse tipo de presença faz diferença eleitoral.

Na política local, há muito tempo a Princesa do Sertão convive com a percepção de que o governo estadual aparece pouco ou entrega menos do que deveria ao segundo maior município da Bahia. Jerônimo parece ter entendido que precisava enfrentar esse sentimento diretamente. Obras, agendas e repetição de presença ajudaram a reduzir a distância entre o PT estadual e uma cidade historicamente competitiva para o grupo de José Ronaldo.

O resultado de Feira também se conecta a um movimento semelhante ocorrido em Salvador. A estratégia de ACM Neto dependia fortemente de grandes margens nos dois maiores colégios eleitorais do estado. Em Salvador, integrantes do seu grupo chegaram a projetar uma diferença superior a 500 mil votos sobre o petista. Ela não aconteceu. Neto venceu a capital, mas com uma margem muito menor do que a esperada.

Feira seguiu roteiro parecido. ACM Neto venceu, mas não produziu a gordura eleitoral necessária para compensar o domínio de Jerônimo no interior. Essa talvez seja a principal leitura política da eleição de 2026 na Bahia. O interior continuou sendo o grande território de sustentação do PT, mas Jerônimo conseguiu fazer algo que quatro anos antes parecia mais difícil: diminuir as derrotas onde ACM Neto deveria ser muito mais forte. Ele não precisou vencer Feira nem Salvador, precisou apenas evitar ser atropelado e conseguiu.

A eleição deixa uma pergunta importante para o futuro da política feirense: até que ponto o domínio municipal ainda se traduz automaticamente em capacidade de transferir votos para aliados em disputas estaduais? Em 2026, ele mostrou que continua forte. ACM Neto venceu Feira. Mas Jerônimo mostrou algo talvez igualmente importante: a cidade já não parece tão impermeável ao PT estadual quanto foi em outros momentos. E, numa eleição decidida pela soma de centenas de municípios, perder menos em Feira e Salvador pode ter sido tão importante para Jerônimo quanto continuar vencendo no interior.


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