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Política / 29 de dezembro de 2025 - 11h 29m

Retrospectiva 2025: racismo, genocídio espiritual, cruzadas morais e tensões dominaram a Câmara de Feira

Retrospectiva 2025: racismo, genocídio espiritual, cruzadas morais e tensões dominaram a Câmara de Feira
Foto: Divulgação/Câmara de Vereadores
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Entra ano, sai ano, e algumas coisas simplesmente não mudam. Em 2025, a Câmara Municipal de Feira de Santana voltou a ser marcada por polêmicas, discussões acaloradas e episódios que pouco dialogaram com os problemas concretos da cidade. Entre discursos inflamados, embates pessoais e disputas por protagonismo, o plenário seguiu chamando atenção mais pelo conflito do que pelo debate público.

Houve denúncia de extorsão quase terminando em agressão, vereador tratando o Dia da Consciência Negra como racismo, preocupação com “genocídio espiritual” na China, devoção explícita a Bolsonaro e Trump, cruzadas morais seletivas e até discussão sobre quem pode ou não receber um documento dentro da Casa. O Blog do Velame reuniu alguns dos episódios mais emblemáticos que marcaram o ano legislativo na chamada Casa da Cidadania, título que, ao longo de 2025, foi frequentemente colocado à prova.

DENÚNCIA DE EXTORSÃO QUASE TERMINA EM AGRESSÃO

A tribuna da Câmara Municipal de Feira de Santana foi palco de mais um episódio tenso quando o vereador Ron do Povo(PP) denunciou que um assessor do vereador Gean Caverna estaria extorquindo parlamentares por meio de mensagens no Instagram, supostamente apagadas logo após os pedidos de dinheiro. Para sustentar a acusação, Ron exibiu na tribuna impressões das conversas e afirmou que, ao procurar Gean Caverna, teria recebido deboche como resposta. O clima rapidamente saiu do controle, exigindo a intervenção de seguranças e resultando na interrupção da sessão, num roteiro que, mais uma vez, transformou denúncia grave em confusão pública.

VEREADOR NÃO SABE O QUE É RACISMO 

Fiel à condição de personagem recorrente das polêmicas da Casa, o vereador Edvaldo Lima (União Brasil) decidiu atacar a lei que instituiu o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, como feriado nacional, classificando-a como “racista e preconceituosa”. Segundo o parlamentar, o feriado “seria apenas para os negros” e dividiria a nação, numa lógica curiosa em que reconhecer a história e a luta de um povo passa a ser discriminação. Ao afirmar que “os brancos que se acabem trabalhando”, Edvaldo acabou oferecendo ao plenário uma aula prática de confusão conceitual, transformando o debate sobre racismo estrutural em mais um episódio constrangedor do ano legislativo.

DETECTOR DE METAIS NA CÂMARA GERA BRONCA
A adoção de detectores de metais na entrada da Câmara Municipal de Feira de Santana, após episódios de confusão entre parlamentares, também rendeu polêmica. A ex-presidente da Casa, Eremita Mota (PP), se recusou a passar pelo equipamento e criticou duramente a medida, afirmando que nunca houve consenso entre os vereadores sobre o uso do dispositivo. Em discurso, relatou constrangimento com a revista e lembrou que armas já circularam pelo plenário em outros momentos, numa fala que misturou desabafo pessoal, crítica à segurança adotada e memória de um ambiente institucional longe do ideal de normalidade.
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BOLSONARISTA FALANDO DE GENOCÍDIO ESPIRITUAL… NA CHINA
Como se os problemas locais já não fossem suficientes, o vereador Ismael Bastos (PL) decidiu ampliar o alcance da Câmara Municipal de Feira de Santana e levou ao plenário uma denúncia sobre o que chamou de “genocídio espiritual” na China, cobrando uma nota de repúdio da Casa. Em discurso inflamado, falou em desumanidade, afronta aos céus e perseguição religiosa aos “irmãos chineses”, encerrando a fala com um apelo à Comissão de Direitos Humanos que, ironicamente, formulou de maneira confusa, pedindo que a Câmara “defendesse a perseguição”. O episódio entrou para a lista daqueles em que ninguém entendeu muito bem o problema apresentado, mas todos entenderam que a pauta, mais uma vez, estava bem distante da realidade de Feira de Santana.
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TEVE ZÉ CURUCA NO MODO ‘HUMILDES ON’, COBRANDO GERAL…

Quem tem ouvidos que ouça. No retorno aos trabalhos legislativos, o vereador Zé Curuca (União Brasil) resolveu subir o tom e mirar o secretariado municipal. Segundo o parlamentar, o distrito de Humildes, seu principal reduto eleitoral, estaria sendo deixado de lado pela administração, com críticas diretas ao secretário de Cultura, Esporte e Lazer, Cristiano Lôbo. Aos brados e sem rodeios, Curuca reclamou da falta de recursos e mandou o recado em alto e bom som. “O cara diz que não tem dinheiro. Gente, isso é uma vergonha… Acorda!”, gritou no plenário.

PRISÃO DE BOLSONARO E REVOLTA COM XANDÃO

Um dos mais fiéis defensores de Jair Bolsonaro no plenário, o vereador Ismael Bastos (PL) reagiu com indignação à prisão do ex-presidente no contexto dos desdobramentos da trama golpista e voltou sua artilharia contra o Supremo Tribunal Federal. Para o parlamentar, a decisão teria caráter de vingança pessoal por parte do ministro Alexandre de Moraes. O discurso, carregado de revolta, foi ouvido no plenário, mas não encontrou ressonância entre os colegas, encerrando-se sem maiores consequências além do registro retórico.
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MADE IN BRAZIL… VEREADOR DE FEIRA FÃ DE TRUMP
Ainda falando sobre Ismael Bastos (PL), o vereador gerou mais uma repercussão durante a sessão ordinária da Câmara, ao utilizar a tribuna para fazer críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e comparações com outros líderes mundiais. Durante o discurso, o parlamentar exibiu fotos de Donald Trump (Estados Unidos), Nayib Bukele (El Salvador) e Lula, questionando as “semelhanças entre os três presidentes”. Em tom irônico, afirmou que apenas um deles seria “cachaceiro”, em referência ao presidente brasileiro. “Só um desses três presidentes é cachaceiro. Qual a semelhança entre esses? Apenas que são presidentes”, discursou Ismael, criticando a fala de Lula na qual o presidente teria comentado.
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TEVE MÉDICA DANDO AQUELA LEVE ALFINETADA DIGNA DE NOVELA…
O climão tomou conta da Casa da Cidadania. O que seria uma sessão rotineira na Câmara Municipal de Feira de Santana terminou em um embate que misturou técnica, política e vaidade institucional. A médica Leonora Leal questionou a Lei nº 4.277/2025, alegando invasão de atribuições médicas, enquanto a vereadora Lu de Ronny defendeu a medida como solução para ampliar o acesso à saúde ocular. O debate, porém, saiu rapidamente do campo jurídico e sanitário quando pedidos de silêncio viraram acusações de desrespeito e falta de humildade, transformando a tribuna livre em palco de tensão.
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AINDA DEU TEMPO DE TENTAR PROIBIR CRIANÇAS NA PARADA LGBTQIAPN+
Em nome da “proteção”, o vereador Edvaldo Lima apresentou na Câmara Municipal de Feira de Santana um projeto para restringir a presença de crianças e adolescentes na Parada do Orgulho LGBT. O discurso veio acompanhado de frases sobre “aberrações” e suposta incapacidade infantil de discernimento, deslocando o debate do direito das famílias para o controle de comportamentos alheios. Ao final, a proposta revela uma lógica em que a diversidade passa a ser tratada como perigo, enquanto a intolerância surge travestida de cuidado.
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O PRESIDENTE TAMBÉM NÃO SOBROU DE BATE-BOCA

Um intenso bate-boca entre o vereador Ismael Bastos (PL) e o presidente da Câmara Municipal de Feira de Santana, Marcos Lima (União Brasil), marcou o ano legislativo. A discussão teve início após Bastos reclamar que um projeto encaminhado à sua comissão foi recebido por um assessor, e não diretamente por ele, levando o parlamentar a solicitar que, dali em diante, qualquer documento fosse entregue apenas a um membro titular da comissão. Marcos Lima reagiu, afirmando que não faria restrições ao trabalho dos assessores, por considerá-los representantes dos vereadores. “Se o vereador não tem confiança no seu assessor, aí não cabe à presidência”, declarou. O embate se intensificou por divergências em torno do uso da palavra “qualquer”, com o presidente ameaçando cassar a palavra de Ismael.

ATÉ 2026

Depois de tantos capítulos polêmicos, a Câmara Municipal de Feira de Santana entrou oficialmente em recesso. Para 2026, a expectativa é de que o roteiro continue oferecendo novos episódios, afinal o histórico recente não estimula apostas conservadoras, mas fica a esperança de que, entre debates acalorados, palavras cassadas e disputas por protagonismo, a cidade deixe de ser figurante e passe, enfim, a ocupar o papel principal, com seus problemas reais e as demandas da população no centro da pauta.


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