Retrospectiva 2025: racismo, genocídio espiritual, cruzadas morais e tensões dominaram a Câmara de Feira
Entra ano, sai ano, e algumas coisas simplesmente não mudam. Em 2025, a Câmara Municipal de Feira de Santana voltou a ser marcada por polêmicas, discussões acaloradas e episódios que pouco dialogaram com os problemas concretos da cidade. Entre discursos inflamados, embates pessoais e disputas por protagonismo, o plenário seguiu chamando atenção mais pelo conflito do que pelo debate público.
Houve denúncia de extorsão quase terminando em agressão, vereador tratando o Dia da Consciência Negra como racismo, preocupação com “genocídio espiritual” na China, devoção explícita a Bolsonaro e Trump, cruzadas morais seletivas e até discussão sobre quem pode ou não receber um documento dentro da Casa. O Blog do Velame reuniu alguns dos episódios mais emblemáticos que marcaram o ano legislativo na chamada Casa da Cidadania, título que, ao longo de 2025, foi frequentemente colocado à prova.
DENÚNCIA DE EXTORSÃO QUASE TERMINA EM AGRESSÃO
A tribuna da Câmara Municipal de Feira de Santana foi palco de mais um episódio tenso quando o vereador Ron do Povo(PP) denunciou que um assessor do vereador Gean Caverna estaria extorquindo parlamentares por meio de mensagens no Instagram, supostamente apagadas logo após os pedidos de dinheiro. Para sustentar a acusação, Ron exibiu na tribuna impressões das conversas e afirmou que, ao procurar Gean Caverna, teria recebido deboche como resposta. O clima rapidamente saiu do controle, exigindo a intervenção de seguranças e resultando na interrupção da sessão, num roteiro que, mais uma vez, transformou denúncia grave em confusão pública.

VEREADOR NÃO SABE O QUE É RACISMO
Fiel à condição de personagem recorrente das polêmicas da Casa, o vereador Edvaldo Lima (União Brasil) decidiu atacar a lei que instituiu o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, como feriado nacional, classificando-a como “racista e preconceituosa”. Segundo o parlamentar, o feriado “seria apenas para os negros” e dividiria a nação, numa lógica curiosa em que reconhecer a história e a luta de um povo passa a ser discriminação. Ao afirmar que “os brancos que se acabem trabalhando”, Edvaldo acabou oferecendo ao plenário uma aula prática de confusão conceitual, transformando o debate sobre racismo estrutural em mais um episódio constrangedor do ano legislativo.



Quem tem ouvidos que ouça. No retorno aos trabalhos legislativos, o vereador Zé Curuca (União Brasil) resolveu subir o tom e mirar o secretariado municipal. Segundo o parlamentar, o distrito de Humildes, seu principal reduto eleitoral, estaria sendo deixado de lado pela administração, com críticas diretas ao secretário de Cultura, Esporte e Lazer, Cristiano Lôbo. Aos brados e sem rodeios, Curuca reclamou da falta de recursos e mandou o recado em alto e bom som. “O cara diz que não tem dinheiro. Gente, isso é uma vergonha… Acorda!”, gritou no plenário.

PRISÃO DE BOLSONARO E REVOLTA COM XANDÃO




Um intenso bate-boca entre o vereador Ismael Bastos (PL) e o presidente da Câmara Municipal de Feira de Santana, Marcos Lima (União Brasil), marcou o ano legislativo. A discussão teve início após Bastos reclamar que um projeto encaminhado à sua comissão foi recebido por um assessor, e não diretamente por ele, levando o parlamentar a solicitar que, dali em diante, qualquer documento fosse entregue apenas a um membro titular da comissão. Marcos Lima reagiu, afirmando que não faria restrições ao trabalho dos assessores, por considerá-los representantes dos vereadores. “Se o vereador não tem confiança no seu assessor, aí não cabe à presidência”, declarou. O embate se intensificou por divergências em torno do uso da palavra “qualquer”, com o presidente ameaçando cassar a palavra de Ismael.

ATÉ 2026
Depois de tantos capítulos polêmicos, a Câmara Municipal de Feira de Santana entrou oficialmente em recesso. Para 2026, a expectativa é de que o roteiro continue oferecendo novos episódios, afinal o histórico recente não estimula apostas conservadoras, mas fica a esperança de que, entre debates acalorados, palavras cassadas e disputas por protagonismo, a cidade deixe de ser figurante e passe, enfim, a ocupar o papel principal, com seus problemas reais e as demandas da população no centro da pauta.