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21 de novembro de 2020 - 04h 11m

A história que não querem te contar – ou que você não quer ouvir.

Por Daniele Britto*

Gostaria de compartilhar um pouco da pesquisa na qual venho me dedicando nos últimos dias. Meu objetivo era compreender os últimos 100 anos da história política de Feira de Santana e como se forja a nossa percepção sobre o assunto. Mas, nem mesmo este intervalo centenário na linha do tempo da nossa história foi capaz de me fornecer respostas. Fui mais além.

Retrocedendo o marco existencial romantizado da fundação da cidade que tem o casal Ana Brandôa e Domingos Barbosa de Araújo como protagonistas, adentramos uma seara inóspita, praticamente desconhecida pela maioria de nós. Há alguns dias busco trabalhos acadêmicos e bibliografias perdidas sobre o nosso territórios, para tentar entender como viemos parar aqui nessa demarcação temporal que conhecemos como “hoje”.

Às vésperas de uma eleição para o segundo turno, eu quis compreender do que, de fato, se tratavam os principais argumentos dos dois candidatos ao pleito: o que seria “mudança” e o que representaria a “continuidade”? Quem são estes personagens da disputa e o que move as suas ideias? É o que pretendi descobrir.

Em uma dissertação de mestrado acerca do período colonial em Feira de Santana, a pesquisadora escreveu uma frase que me marcou profundamente: “uma das tarefas do historiador é recuperar a história, inclusive os seus silêncios”. A partir disso entendi que, neste momento, precisamos estar atentos mais sobre o que [os nossos candidatos] NÃO estão falando do que com o que é efetivamente dito.

Li sobre as políticas de expansão de Portugal no Século XV, e relembrei que aos donatários das capitanias hereditárias eram dados os poderes de: ministrar a justiça, distribuir terras de sesmarias, arrecadar os dízimos e fundar povoações. Isso é tornar-se o velho e conhecido “dono da porra toda”. Para nós, dois nomes importam: Francisco Dias d’ Ávila e Antônio Guedes de Brito. Esses dois daí eram donos de tudo. E todos.

Feira foi desmembrada de Cachoeira, mas era muito maior do que é hoje. Curiosamente, até Santa Bárbara fazia parte do município e eu não disse que isso significa nada. Talvez subliminarmente, quem sabe? Li sobre gado. Muito gado pra pouquíssimos proprietários. Fazendas cresciam, impostos eram gerados e pagos à Coroa Portuguesa mas, nem tudo eram flores: os negros fugidos e os índios rebeldes criavam problemas. Muitos problemas.

Índios e negros representavam ameaça à colonização e consequentemente, ao progresso e ao desenvolvimento. E isso justificava a captura destes indivíduos, pois, era justo e necessário frear quem impede o progresso. E é a partir daqui que a história de Feira de Santana é contada de três maneiras diferentes: pela tendência tardicional dominante, que foca no casal Araújo e Brandoa; uma intermediária, que fala sobre o casal mas lança algumas tímidas críticas e, por último a tendência considerada polêmica, pois coloca holofotes em um nome que pouco ouvimos: João Peixoto Viegas, um sertanista e abastado proprietário de terras. Homem que sabia caçar negro escondido e índio bravo; que multiplicava  seus domínios – e seu gado – como mágica – e com violência. Não era um bom gestor e sim um exímio explorador. Nem preciso dizer que pulei tudo e me voltei para a versão polêmica que tinha como principais fontes Godofredo Filho e o Monsenhor Renato Galvão.

Pra facilitar, um resumo: mesmo na versão mais polêmica da história de Feira, as relações entre poder e memória se resumem a homens brancos e a forte e decisiva participação da igreja cristã em tudo. De volta ao presente, pergunto: ate onde sua memória alcança, já foi diferente? Hoje está sendo diferente? 

Os personagens apagados e silenciados de ontem permanecem, hoje, os mesmos. Mais de 400 anos depois, é só olhar para Feira de Santana e ver isso nitidamente. Feira foi construída à base de exploração, favorecimentos de determinados grupos e extermínio de quem valia menos que pasto. A tal “mudança”, da forma que deveria ser, talvez nunca chegue e a “continuidade” só continuará beneficiando os de sempre. 

Se não quiser seguir o meu exemplo e futucar a linha do tempo entrecortada da história de Feira, analise, ao menos, os últimos cinquenta anos: é uma dança das cadeiras com convidados limitados, sendo que alguns deles ao tempo que são inimigos, outra hora, de acordo com os seus interesses, então do mesmo lado da arquibancada torcendo para o “ex-amigo” quebrar a perna.

Já tive firmes convicções políticas, mas hoje prefiro manter apenas as ideológicas. Sempre optei pela minha liberdade e me recuso a me filiar a qualquer grupo que me imponha condições cerceadoras ou me faça sentir uma palhaça ou marionete desesperada. Minha crítica não está à venda e, da mesma forma, os meus elogios.

É por isso que o meu voto será uma conta simples a qual deixará tranquila a minha consciência e a minha dignidade: quem mais se aproxima do exímio exterminador de índios e empreendedor do ramo de navios negreiros e tráfico de escravos João Viegas, o “rei” do fumo e detentor de um dos maiores latifúndios do Brasil, não terá o meu voto. 

E você? Já conseguiu enxergar a história que não querem te contar ou vai optar por ser o gado desse latifúndio?

*Daniele Britto


Advogada e Jornalista
Mãe, feminista, antirracista e aliada na luta contra a homotransfobia
Pesquisadora no grupo Corpo-território Decolonial (Uefs))
Mestranda PPGE/Uefs

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