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Opinião / 23 de outubro de 2026 - 03h 59m

Amar no singular, abandonar no plural – uma carta aos que partilho o sangue

Compartilhamento Social

Por Caio Batista

Queridos amigos, parentes e gentes próximas tão convictas que aqui chegaram,

Queria aproveitar [este] espaço para dizer, nestes momentos finais¹, o quanto tenho pensado em vocês. Começo refletindo sobre uma das grandes façanhas do desmantelo administrativo nacional – que ainda ecoa nestes nossos tempos.

Em 1965, a célebre coluna Preta Press, noticiava que homens do DOPS paulistano saíram à procura do autor da peça da peça Electra. Havia urgência. Havia perigo. Havia ameaça à ordem pública. O tal sujeito precisava ser detido. O dramaturgo em questão, segundo desconfiavam, andava espalhando ideias potencialmente subversivas.

Chamava-se Sófocles, era contemporâneo de Aristóteles e estava morto havia mais de dois mil anos.

*

Quando recordo esses e outros desmantelos institucionais que vieram a reboque do Golpe de 64, não sinto indignação: sinto carinho e ternura, veja só. O Brasil é um país tão extraordinariamente lúdico que consegue declarar guerra aos mortos. E, ainda por cima, perder.

Passaram-se sessenta e um anos. Mudaram-se os presidentes, os generais, as propagandas de cigarro, aboliram-se os mullets e os elegantíssimos cortes pigmalião, mudaram-se ainda os preços da cerveja e do diesel, muita gente roeu osso e a poupança Bamerindus – conforme me informaram – foi pra casa do caralho. Mas o brasileiro continua firme & tenaz, necessitando desesperadamente de um bicho-papão com o qual possa lutar e, heroicamente, expurgar da nossa pátria.

Antigamente – ainda sob a égide ditatorial –, além de Sófocles, outros tanto bichos-papões surgiram para atribular a ordem do país. Um deles foi a vodca: o destilado, naturalmente, soava como uma espécie de elixir comunista, afinal, era de origem russa.

Depois o perigo estava nas minissaias;

Depois no rock n’ roll (que eu até concordo);

Depois nos festivais;

Depois em Paulo Freire;

Depois/hoje no kit gay.

Penso que a importância nunca esteve, essencialmente, na ameaça. O importante, de fato, sempre foi o medo, que precisa estar estabelecido e vigente.

O medo castra. Um povo que perde o medo começa a fazer perguntas. E perguntas, na história política brasileira, sempre foram muito mais perigosas do que respostas.

É aí que penso em vocês, parentes; e, amparado pela sacra Constituição que até então nos deixa (ainda) questionar, eu pergunto: que medo irracional é esse que tanto vos ameaça nestes nossos tempos sombrios? Qual o bicho-papão da vez, efetivamente, assombra tanto este nosso solo pátrio?

*

Conheço meus parentes. Por um lado, sou neto de um virtuoso, progressista (do seu jeitinho) e extremamente humano homem sertanejo. Por outro, venho de um clã que sofreu uma insegurança social absurda durante os anos 1980, a tal da “década perdida”.

A hiperinflação, a crise no campo, o desmantelamento dos serviços públicos e toda a herança maldita do modelo econômico e político da ditadura militar foi comum a todos os galhos da minha árvore genealógica – ou, pelo menos, às pessoas próximas, vá lá –, causando pesar e temor de como seriam os amanhãs.

Havia uma cultura coletivista entre as sociedades interioranas – como essas nas quais fui formado – que era decisiva para a manutenção da dignidade e da vida. Naturalmente, meus queridos parentes e amigos que passaram por isso e leem este escrito até aqui, sabem disso melhor do que eu.

Conheço as virtudes de cada um dos meus e sei que a raiz desse ímpeto coletivista, dessa humanidade que eu já testemunhei várias vezes e pela qual eu posso depor, vem exatamente desses momentos de desmantelo social que viveram. Conheço a generosidade doméstica de cada um de vocês, amados parentes e amigos. Conheço gente da família que empresta dinheiro sabendo que não vai receber. Conheço bem quem acolhe irmão desempregado, sobrinha abandonada, agregado inconveniente e tantos outros sujeitos que habitam o escopo da fraternidade vivida na roça.

*

Por isso mesmo certas coisas me intrigam. Parece existir uma curiosa modalidade de amor praticada neste país e que contamina até os sujeitos que pareciam imunes a esse fenômeno, como alguns de vocês, amados parentes e amigos:

Ama-se a humanidade. Detesta-se o humano;

Defende-se a família. Ignora-se (alguns) parentes;

Protege-se a infância. Abandona-se a criança (sobretudo se a desdita for concebida fora do casamento falido do irmão hipócrita-crente-tardio);

Combate-se a corrupção. Admira-se o corrupto que torce pelo mesmo time ou diz proteger os princípios da família tradicional.

*

Essas eleições me mostraram que, bem pertinho de mim, existe gente capaz de passar três horas indignada com um beijo entre duas mulheres e três segundos refletindo, por exemplo, sobre a vida de um deficiente pobre, que muitas vezes tem o mesmo sangue que nós, e depende do constitucional – “Ó Santa Constituição Brasileira, rogai por todos os seus detratores” – Benefício de Prestação Continuada, o famigerado BPC, que lhes garante o mínimo de dignidade. E esses três segundos de reflexão, quando ocorrem, costumam parecer excessivamente massacrantes.

Continuo pensando nesse nosso parente. Não vou dizer o nome. Nem preciso. Ele já apareceu na memória de vocês. E apareceu porque existe. Porque não é uma teoria. Porque não é um inimigo imaginário fabricado em fake news de WhatsApp.

Ele toma remédios de verdade. Sente dores de verdade. Enfrenta dificuldades de verdade.

Depende, insisto, exatamente do BPC que vai ser ignorado num eventual governo dos 22. Na prática: se o reajuste do BPC for desindexado do salário-mínimo, como promete a agenda econômica dos 22, o parente que depende de tal benefício, continuará a receber estes mesmos R$ 1621 atuais, enquanto os valores de mercado e fármacos seguirão escalando conforme a inflação, o que significa tempos de insegurança social e clínica para o tal parente. O que se recebe, mal dará para custear o básico².

*

Custo acreditar que, enquanto isso é pautado no plano de (des)governo dos lesa-pátria do 22, há pessoas com as quais eu partilho o mesmo sangue travando batalhas épicas contra bichos-papões que há tanto tempo estão por aí, só que, agora, em versões atualizadas:

É mamadeira de piroca;

É conspiração marxista;

É o fantasma da ideologia de gênero (uhuuuu 👻) que se espreitam nas universidades públicas e levam avós a deixar gordas poupanças para seus netos cursarem centros particulares;

É o perigo iminente da cantora harmonizada Anitta cantando macumba no Fantástico;

Tudo isso, de fato, deve ser muito mais urgente e perigoso do que uma (DECLARADA) insegurança social pela qual vocês mesmos passaram no pós-ditadura e que sonda a nossa pátria mais uma vez.

Parabéns pela bravura de cada um de vocês, realmente, não se pode bobear, mas confesso que queria ver esse mesmo vigor e heroísmo nas urnas no domingo agora.

*

Talvez para você, parente e amigo que tem, com muito esforço e dignidade, uma vida melhorzinha, uma casa própria e comida na mesa todo dia, importe mais que seus netos e filhos não dependam do que chamam de “esmola”, mas que para muita gente é decisivo – como seria para você há algumas décadas. Para quem tem pouco ou quase nada, o aluguel continua chegando – mesmo com os salários congelados;

A conta de luz continua chegando;

A doença continua chegando;

A vida – essa inconveniente – continua chegando.

E é aí que a política perde sua maquiagem.

Porque política nunca foi – apenas – conversa-exaltada-e-constrangedora-na-varanda-da-casa-de-vovô que pauta o individualismo em detrimento da necessidade do próximo.

Política é decidir quem pode comer. Quem pode estudar. Quem pode tratar uma doença. Quem envelhece com dignidade. Quem morre mais cedo. O resto é fantasia e egoísmo premente, do mais puro & cristalino.

*

Por isso não consigo olhar para determinadas escolhas como quem escolhe um time pra torcer. Não é futebol – e nem religiosidade cega, disgraça.

Nenhum aposentado deixa de comprar remédios porque o Bahia perdeu. Nenhuma pessoa com deficiência passa fome porque o Vitória foi rebaixado (mas que Deus tenha sempre piedade do meu amado Lion).

Mas decisões políticas fazem exatamente esse tipo de coisa. E o mais espantoso é que vocês sabem disso. Se fossem ignorantes, eu teria esperança. A ignorância é um infortúnio do qual se tem cura. Mas vocês são inteligentes.

Sabem perfeitamente distinguir uma fábula de uma realidade. Sabem exatamente quem depende do Estado para sobreviver. Sabem quem sofre quando a proteção social encolhe. Sabem quem paga a conta.

O que me entristece não é a falta de lucidez. É justamente a lucidez, porque ela elimina todas as desculpas. A lucidez, neste caso, deixa evidente a covardia.

*

E, diante disso, só me resta uma tristeza mansa, dessas tristezas brasileiras que todos nós conhecemos tão bem: a de perceber que às vezes somos capazes de tratar com infinita ternura um parente à mesa do almoço e, no dia seguinte, apoiar com absoluta serenidade tudo aquilo que torna a vida dele mais difícil.

Talvez a grande tragédia nacional nunca tenha sido a maldade. Talvez tenha sido essa estranha capacidade de amar as pessoas no singular e abandoná-las no plural.

Votar nos 22 é ser signatário de uma catástrofe coletiva sem precedentes que, ainda que – conforme sua percepção – não te atinja diretamente, reverberará por muito tempo nesta pátria. Votar nos 22 é ter sangue nas mãos.

*Caio Batista é um jornalista baiano que escreve sobre o recôncavo e agora sobre Feira de Santana.


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