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Eleições 2026 / 05 de outubro de 2026 - 05h 14m

“E agora, José?”: força municipal não vira cadeira em Brasília e Zé Ronaldo segue sem eleger um federal do seu grupo

“E agora, José?”: força municipal não vira cadeira em Brasília e Zé Ronaldo segue sem eleger um federal do seu grupo
Foto: Reprodução
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Leandro Santana

O sonho de Zé Chico (União Brasil) de chegar a Brasília ficou, mais uma vez, pelo caminho. Com 47.991 votos em toda a Bahia, sendo 34.182 apenas em Feira de Santana, o empresário não conseguiu conquistar uma das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e acumulou a terceira tentativa frustrada de chegar ao Congresso Nacional.

Mais do que uma derrota pessoal, o resultado expõe uma dificuldade histórica do grupo político liderado pelo prefeito José Ronaldo (União Brasil): apesar da força consolidada em Feira de Santana, onde governa pela quinta vez, o grupo ainda não conseguiu construir um nome próprio com densidade estadual suficiente para ocupar uma cadeira de deputado federal.

Desta vez, porém, não faltaram demonstrações públicas de apoio. Zé Chico assumiu em 2025 a presidência municipal do União Brasil em Feira, por articulação diretamente ligada a José Ronaldo, e entrou em 2026 como o candidato preferencial do prefeito para a Câmara.

O líder do executivo feirense gravou vídeos, participou de atos, pediu votos e tratou publicamente a eleição do companheiro como estratégica para ampliar a representação da cidade em Brasília. Em uma das manifestações mais explícitas da campanha, chegou a dizer que Feira “precisava” de Zé Chico na Câmara Federal e que o empresário era “meu deputado federal”.

Houve também tentativa de organizar o grupo em torno da candidatura. Secretários municipais declararam apoio, encontros reuniram lideranças e o discurso de unidade foi repetido durante a campanha. Em julho, por exemplo, o secretário municipal de Agricultura classificou a candidatura de Zé Chico como um projeto do grupo de José Ronaldo, e não apenas uma iniciativa pessoal do empresário.

Ao mesmo tempo, a Prefeitura acelerou um amplo programa de pavimentação pela cidade. Em março, o prefeito anunciou R$ 133 milhões em obras, e nas semanas finais da campanha diversas frentes de asfaltamento avançaram por bairros como Feira X, Aviário, Queimadinha, Cidade Nova e Jardim Cruzeiro. A gestão apresentou as intervenções como cumprimento de uma promessa feita na eleição municipal de 2024. Críticos, porém, passaram a enxergar o volume e o ‘timing’ das obras também sob uma leitura eleitoral. Nem isso foi suficiente.

A votação de Zé Chico ficou novamente concentrada em Feira. Dos 47.991 votos obtidos no estado, mais de 71% vieram do município. Fora dali, ele somou menos de 14 mil votos. O número ajuda a explicar a derrota: para chegar à Câmara, não basta dominar uma base municipal; é preciso construir capilaridade em dezenas de cidades e atravessar regiões politicamente distintas da Bahia. Esse é justamente o ponto em que a candidatura voltou a falhar. Na Princesa do Sertão, o empresário teve votação relevante. No restante do estado, não conseguiu construir uma rede competitiva.

A dificuldade também não é nova. Em 2014, ele recebeu 55.170 votos e não se elegeu. Em 2022, voltou a disputar a Câmara e terminou com 44.773 votos, sendo 34.540 apenas no município. Após aquela eleição, chegou a admitir publicamente a possibilidade de deixar o grupo político, reclamando de falta de apoio de lideranças locais à sua candidatura. Na ocasião, Ronaldo reagiu dizendo ter “consciência tranquila” e sustentou que havia se dedicado à campanha do aliado.

Quatro anos depois, a situação foi diferente. Desta vez, o chefe do Paço Maria Quitéria fez questão de se expor politicamente ao lado do presidente do Fluminense de Feira e, praticamente, assumiu a candidatura como sua. Nos bastidores, a leitura era clara: se o empresário não conseguisse se eleger, ao menos o prefeito poderia argumentar que havia feito a própria parte. Mas o resultado levanta outra questão: até que ponto o próprio grupo ajudou a fragmentar o projeto?

Durante a pré-campanha, vereadores ligados à base governista assumiram compromissos com outros candidatos a deputado federal, inclusive nomes de fora de Feira. Levantamentos locais mostraram que boa parte dos vereadores da base de José Ronaldo já estava fechada com outras candidaturas. Carlos Geilson chegou a questionar publicamente por que tantas lideranças preferiam candidatos de fora da cidade.

Dentro do próprio União Brasil, o problema era visível. Vereadores do partido já haviam acertado apoio a nomes como Gabriel Nunes, Dal Barreto e João Bacelar, o que dificultou a formação de uma chapa local inteiramente concentrada em Zé Chico.

A eleição de 2026 mostra, portanto, uma contradição no grupo ronaldista. O prefeito segue sendo um dos políticos de maior força eleitoral da história de Feira de Santana: foi eleito para o quinto mandato em 2024 e mantém uma base municipal ampla, mas essa força pessoal não tem se convertido automaticamente em capacidade de eleger um deputado federal diretamente identificado com o seu comando político.

E o problema ganha uma dimensão ainda maior neste ano. A segunda maior cidade do estado perdeu também Zé Neto (PT), que não conseguiu renovar o mandato de deputado federal. Apesar de adversário histórico, o petista vinha exercendo papel relevante na destinação de recursos para o município. Dados de emendas recebidas por Feira apontam milhões de reais vinculados a indicações do parlamentar nos últimos anos.

A ausência de um federal diretamente ligado a Feira pode ter consequências práticas. Em Brasília, emendas, articulações ministeriais e interlocução com o Governo Federal dependem muito da presença e da atuação permanente de parlamentares. A Câmara Municipal chegou a destacar, em 2025, que uma articulação política organizada em Brasília ajudou a ampliar significativamente os recursos de emendas destinados ao município, na “Missão-Brasília”.

No fim, sobra a pergunta que dá nome ao próprio dilema: “E agora, José?”. Para Zé Chico, depois de mais uma derrota, e para José Ronaldo, que segue sem conseguir eleger um federal diretamente ligado ao seu grupo, o resultado de 2026 abre mais dúvidas do que respostas. Os próximos movimentos dirão se haverá uma nova tentativa ou se será preciso redesenhar completamente esse projeto político.


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