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Feira de Santana / 29 de março de 2021 - 12h 10m

Hapvida de Feira de Santana acusada de obrigar médicos a prescrever Kit Covid 

Hapvida de Feira de Santana acusada de obrigar médicos a prescrever Kit Covid 
Em mensagens de Whatsapp, coordenador da Hapvida em Feira cobra que médicos prescrevam um kit ineficaz para tratar covid-19 aos pacientes.

“Tivemos uma queda expressiva da prescrição do kit covid no dia de ontem, saímos de 70% para 25%, o que houve?”.  O questionamento feito no grupo do WhatsApp “Somente clínicos HV” evidencia uma prática questionável, no tratamento de pacientes com sintomas de covid-19, adotada pela coordenação médica da operadora de saúde, Hapvida de Feira de Santana.  A mensagem enviada pelo médico Breno Leão, diretor técnico hospitalar, é apenas uma de muitas que circulam nos grupos de WhatsApp de médicos que prestam serviços à empresa e que o Blog do Velame teve acesso.

O chamado “kit Covid” é prescrito pelos médicos da Hapvida, mesmo com a ciência dizendo que eles não funcionam. Hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina fazem parte do chamado tratamento precoce, que segundo cientistas e instituições de pesquisa renomados, não funciona. Dois profissionais que trabalham na rede conversaram com a reportagem anonimamente. Eles afirmaram que a diretoria da operadora obriga os médicos a incentivar o uso do kit e liga para os pacientes para confirmar se lhes foi oferecido o “tratamento precoce”. A versão dos profissionais de saúde se confirma com uma das mensagens que o blog teve acesso. No grupo, “Troca Plantões Hapvida”, Breno Leão escreveu: “A rede está ligando para os pacientes para confirmar tanto a prescrição, liberação e se estão levando pra casa”. Os atendimentos são feitos  em Feira de Santana no Hospital Francisca de Sande, que recebe exclusivamente pacientes da operadora.

O médico Carlos Starling, condutor científico da Sociedade Brasileira de Infectologia, foi enfático sobre a prescrição do kit. “Isso não passa de charlatanismo”, disse em entrevista à rede Globo.

Em recente reportagem exibida pelo Fantástico, especialistas acenderam um sinal de alerta: os efeitos colaterais dessas drogas podem estar levando pacientes para a fila de transplantes. Em São Paulo, já pode ter provocado a morte de três pessoas. Luiz Carneiro, diretor do Serviço de Transplante e Cirurgia de Fígado do HC-SP, afirmou existir um aumento de pacientes com indicação de transplante que tomaram ivermectina. A ivermectina é um vermífugo usado para combater parasitas, como lombrigas e piolhos; a cloroquina é usada no tratamento de malária, lúpus e artrite reumatóide; e a azitromicina é um antibiótico. As vendas de hidroxicloroquina subiram 173% em fevereiro desse ano em relação ao ano passado e as de ivermectina, mais de 700%.

Em nota, a Associação Médica Brasileira (AMB) disse que o kit covid deve ser banido. “Não passa pela liberdade do médico prescrever aquilo que é ineficaz, que tem risco”, disse César Eduardo Fernandes, presidente da AMB.  Apesar das recomendações contrárias ao uso, a direção da Hapvida segue pressionando que o kit seja prescrito. “Os últimos 3 dias foram aquém do esperado na prescrição do kit covid. Por favor peço aos senhores a adesão ao protocolo e a devida prescrição do kit”, cobrou, mais uma vez, Breno Leão aos médicos em um grupo.

 

Quando a meta é batida, o diretor elogia os subordinados. “Vamos ficar atento à prescrição do kit hidroxicloroquina. No domingo os plantonistas estão de parabéns”, destacou. Respondendo uma postagem do Blog, usuários do Twitter confirmam que já foram orientados a usar o kit covid em atendimento na Hapvida de Feira de Santana. Ana Flavia relatou que fez consulta com uma ginecologista e ela a instruiu a fazer o tratamento precoce.  Pedro Machado contou que foi diagnosticado com covid-19 e que o médico que o atendeu na Hapvida prescreveu o kit. Edu Marques relatou o mesmo procedimento. “Fui atendido lá no começo do mês, o médico prescreveu e o hospital me deu o remédio”, disse.  Ao todo, foram mais de 15 relatos de pacientes da Hapvida de Feira com sintomas de covid-19 que tiveram como prescrição médica, o kit covid.

Um dos médicos ouvidos pelo blog explicou como funciona o sistema da empresa. “Todo mundo que você atende gera um CID. Qualquer CID que possa ser covid (tosse, gripe, dor de garganta) vai gerar um protocolo e o médico vai preenchendo passo a passo e no final tem a indicação de prescrição. Sempre aparece a mesma coisa, receitar kit covid”, relatou.  CID são códigos representados por números que fazem parte do conjunto de Códigos Internacionais de Doenças, reconhecido como CID 10, o qual é responsável por determinar e classificar doenças, assim como sintomas, queixas, causas externas, sinais, aspectos anormais e circunstâncias sociais para doenças ou ferimentos.

Casos assim não acontecem apenas em Feira de Santana. Em Fortaleza, o médico Felipe Nobre relatou para BCC ter sido dispensado após se recusar a prescrever hidroxicloroquina a pacientes com covid-19, na Hapvida da cidade (clique AQUI e leia). Os médicos ouvidos pela reportagem relataram que decidiram não denunciar a pressão da operadora por medo. Segundo os profissionais, trata-se de um grupo muito forte. Eles temem represálias profissionais caso se identifiquem e levem o caso aos conselhos responsáveis.  O Código de Ética Médica destaca que o profissional de saúde não pode sofrer pressão para adotar determinado remédio.

Procurada, a Hapvida inicialmente não respondeu aos contatos, entretanto após a publicação da reportagem enviou a nota abaixo:

Nota à imprensa

Sempre respeitamos a soberania médica quando o objetivo é salvar vidas. Dentre os 4 mil médicos das emergências e urgências da rede, aproximadamente metade adotou a hidroxicloroquina no tratamento conforme sugerido em protocolos dinâmicos, elaborados por um comitê médico internacional que se apoia em evidências clínicas e critérios do CFM – Conselho Federal de Medicina diante da excepcionalidade da situação, para prescrição em pacientes com sintomas leves no início do quadro clínico, em que tenham sido descartadas outras viroses (como influenza, H1N1, dengue), e que tenham confirmado o diagnóstico de COVID 19, desde que em comum acordo com os pacientes. A outra metade, utiliza outras drogas. Isso comprova a total liberdade de tomar uma condução terapêutica. Importante destacar que que não há registros de internações resultantes de qualquer efeito colateral pelo uso do medicamento; que acompanha atentamente a jornada de todos os pacientes até o desfecho de cada caso. Para nós, cada vida importa. Não hesitamos na hora de garantir o acesso à saúde, com os melhores protocolos médicos e medicações que se mostraram, em nossa experiência clínica, eficientes no enfrentamento do vírus, sobretudo no início dos sintomas.

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