De olho em ministério e em 2030, ACM aposta em Bolsonaro, mas vê Lula ter 71% na Bahia e termina eleições com duas derrotas seguidas
Com 100% das urnas apuradas, Lula recebeu 6.485.258 votos na Bahia, contra 2.608.761 de Flávio Bolsonaro, que alcançou 28,69%. A diferença chegou a quase 3,9 milhões de votos. No primeiro turno, o petista havia obtido 66,17% dos votos válidos, percentual que cresceu 5,14 pontos na votação decisiva. Em números absolutos, Lula conquistou mais 820 mil votos, enquanto Bolsonaro acrescentou aproximadamente 166 mil à sua votação.
O resultado ganha dimensão política especialmente pela movimentação de ACM Neto nas três semanas que separaram os dois turnos. Após perder novamente o Governo da Bahia para Jerônimo Rodrigues (PT), reeleito com 55,80% dos votos válidos, contra 43,72% do candidato do União Brasil, o ex-prefeito decidiu abandonar a posição de neutralidade adotada na eleição presidencial de 2022 e mergulhar na campanha bolsonarista.
No dia 7 de outubro, em Brasília, Neto oficializou o apoio a Flávio Bolsonaro e assumiu o compromisso de mobilizar sua base política na Bahia. A estratégia envolvia reunir prefeitos, deputados, vereadores e lideranças regionais para tentar diminuir a vantagem histórica do PT no quarto maior colégio eleitoral do país.
A movimentação levou o calista a diferentes regiões baianas. Em Vitória da Conquista, participou de um encontro ao lado de João Roma (PL) e da prefeita Sheila Lemos (União Brasil). Na reta final, também integrou a agenda de mobilização bolsonarista em municípios como Porto Seguro e Feira de Santana, onde participou de um ato político na Avenida Getúlio Vargas, além de incluir Itapetinga no roteiro de campanha.
A ofensiva, entretanto, não produziu a redução esperada da vantagem petista. Pelo contrário, a diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro passou de aproximadamente 3,22 milhões de votos no primeiro turno para 3,87 milhões no segundo. Embora o candidato do PL também tenha ampliado sua votação, seu crescimento foi proporcionalmente menor que o do presidente.
Outro dado evidencia a dimensão da vitória petista: Lula venceu em 413 dos 417 municípios baianos. Flávio Bolsonaro conseguiu superar o presidente em apenas quatro cidades: Luís Eduardo Magalhães, Buerarema, Itamaraju e Teixeira de Freitas.
Para ACM Neto, o cenário representa duas derrotas eleitorais em um intervalo de três semanas. A primeira, diretamente nas urnas, ao perder novamente para Jerônimo Rodrigues. A segunda, no campo das alianças nacionais, com a derrota de Flávio Bolsonaro, candidato que passou a apoiar publicamente e em cuja campanha investiu parte de seu capital político.
Mais do que o resultado presidencial, a decisão de aderir à candidatura bolsonarista envolvia uma aposta estratégica para o futuro da oposição baiana. Nos bastidores de Brasília, o nome do líder do União Brasil passou a ser considerado para integrar um eventual governo Flávio Bolsonaro, com possibilidade de assumir o Ministério do Desenvolvimento Regional, como reconhecimento pelo apoio político na Bahia.
Uma eventual participação no primeiro escalão do governo federal poderia representar um importante instrumento de reorganização política para Neto. À frente de um ministério ligado a investimentos, infraestrutura e desenvolvimento regional, o dirigente do União Brasil teria maior interlocução institucional com prefeitos, acesso às discussões sobre obras e programas federais e condições de ampliar sua presença política no interior baiano.
Essa possibilidade tinha relevância particular para um político que permanece sem mandato eletivo desde que deixou a Prefeitura de Salvador, em 2020, e acumula duas derrotas consecutivas na disputa pelo Palácio de Ondina. Uma estrutura ministerial poderia contribuir para a manutenção de alianças municipais e para a construção de um projeto político voltado às eleições de 2030.
A derrota de Flávio Bolsonaro, porém, retirou essa possibilidade imediata do horizonte. Com Lula reeleito presidente e Jerônimo Rodrigues reconduzido ao Governo da Bahia, os principais espaços de articulação dos Executivos federal e estadual continuarão sob o comando do grupo político adversário de ACM Neto.
Há ainda outra consequência política da escolha feita no segundo turno. Ao contrário de 2022, quando evitou declarar apoio a Lula ou Jair Bolsonaro, Neto assumiu em 2026 uma posição explícita ao lado do bolsonarismo. A aproximação fortalece seus vínculos com a direita baiana, mas também torna mais evidente sua associação a um campo político que voltou a ser derrotado por ampla margem no estado.
Essa mudança poderá influenciar as articulações para as eleições municipais de 2028, quando o União Brasil buscará preservar e ampliar sua presença nas prefeituras baianas. Ao mesmo tempo em que a aliança com o PL pode facilitar a unidade de setores oposicionistas, também coloca para ACM Neto o desafio de dialogar com um eleitorado que, nas eleições presidenciais, demonstrou preferência majoritária por Lula.
O resultado não significa, necessariamente, uma transferência automática dos votos presidenciais para as disputas municipais ou estaduais. ACM Neto recebeu mais de 3,6 milhões de votos na corrida pelo governo, número superior à votação obtida por Flávio Bolsonaro na Bahia. Isso demonstra que há diferenças entre o eleitorado do ex-prefeito e o do candidato presidencial que ele apoiou, além de indicar que as dinâmicas eleitorais não são idênticas.
Ainda assim, o desfecho de 2026 evidencia os limites da capacidade de transferência de votos das lideranças oposicionistas e acrescenta obstáculos à reorganização política do ex-prefeito. Sem o Governo da Bahia, sem uma eventual posição no Executivo federal e agora mais diretamente associado ao bolsonarismo, ACM Neto terá de reconstruir sua estratégia de atuação política a partir das estruturas partidárias e das alianças municipais que mantém no estado.
A questão que se coloca agora não é apenas como ACM Neto reorganizará a oposição, mas de que maneira conseguirá manter influência sobre prefeitos e aliados nos próximos quatro anos, sem o respaldo institucional que poderia conquistar com uma vitória estadual ou com a chegada de seu candidato à Presidência da República.