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Feira de Santana / 25 de setembro de 2019 - 09h 58m

O julgamento de Lucas da Feira

O julgamento de Lucas da Feira

Por Maryanna Nascimento* 

Dia 25 de setembro de 2019, 170 anos depois de ser enforcado, Lucas Evangelista dos Santos, o Lucas da Feira, foi a julgamento no teatro do Cuca — diga-se de passagem, a cerca de 250 metros da Igreja Matriz, onde está sepultado. Era um júri simulado, claro, mas devo dizer que às vezes eu perdia a consciência de que ali havia encenação e aquele homem negro e descalço, posicionado ao lado direito do palco, era um ator e não o próprio Lucas. O sentimento se devia não só às atuações mas também à reação do público.

Revisitando a história, é dito que o filho de Maria e Inácio, ambos escravizados, se libertou lá pelos seus 20 anos. Mas como gozar da liberdade plena, em meados do século XIX, quem não era letrado, não tinha réis no bolso e já na barriga da mãe nasceu condenado? Lucas, no corpo do ator Jailton Nascimento, sem hesitar confessou os seus crimes no júri de hoje — de roubo de colheres de prata a homicídio, mas foi incisivo ao dizer que os fez por sobrevivência.

A acusação se manifestou na sequência. O ponto alto, para mim, foi quando ela usou a clássica onomatopeia de lamúria, o “mimimi”, para dizer que ali não era espaço para falar de cor. O júri, explicava, deveria se apegar à Constituição e nela todos são iguais. Lucas Evangelista, portanto, deveria ser julgado imparcialmente pelos crimes que cometeu e confessou. “Simples”, disse ela. E simplista, penso eu.

A defesa, por outro lado, veio com um discurso mais elaborado, fazendo referências a Georgina Erisman, Euclides da Cunha e Nina Rodrigues. Um dos argumentos era que a escravidão não havia acabado, apenas havia se “sofisticado”. As novas chicoteadas são os tiros de bala; as senzalas, as prisões insalubres. Tentava aproximar o personagem de Lucas da Feira do júri, dizendo que aquele réu era personificado na pele de outras pessoas que hoje também entram para o crime por falta de oportunidade.

Ao fim da sua fala, a defesa recebeu muitos aplausos e gritos de comemoração da plateia.

Não era o caso, porém, do meu vizinho de cadeira que logo constatou: “Olha os esquerdistas, esquerdopatas…”. O incômodo dele, expressado verbalmente, não demorou a se repetir.

Após a votação secreta do júri — sete pessoas escolhidas por sorteio, entre aqueles que estavam na plateia, a juíza abriu o envelope com o resultado.

Lucas deve ser absolvido dos crimes?

Sim.
Sim.
Sim.
Sim.
Não.
Não.
Sim.

Na plateia, uma mulher gritou “Racistas”, em referência aos votos condenatórios. O meu vizinho entrou mais uma vez em ação: “Isso aí é a sua opinião…”, como se a mulher o escutasse, embora estivessem em áreas diferentes do teatro. Ela, curiosamente, no andar inferior, bradando para todo o teatro ouvir, dando a cara a tapas à la Lucas da Feira; ele, no andar superior, olhando-a de cima, enquanto monologava o quanto considerava aquela reação dilacerante um tanto ilegítima.

Curioso.

*@marynascimento é jornalista.

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